O PC

A descoberta de PC Farias em Londres

Certo dia acordo com um telefonema de uma amiga de Londres...

- Kha! Há três dias que você não me sai da cabeça.
- Porque Bia, aconteceu alguma coisa?
- Não. Mas escuta o que vou te contar e veja se estou louca:

(Como amiga Beatriz Artero sempre me pede opiniões. Se acata ou não, não sei dizer.)

Há três dias estou eu em meu trabalho na Abreu Turismo e recebo uma pessoa que me pede uma série de reservas. Uma suíte presidencial em um hotel cinco estrelas, a locação de um sobrado num bairro nobre do subúrbio da cidade, um telefone celular que mudasse de número diariamente e, entre outras exigências, uma Limousine com a ressalva de que o motorista não poderia ser nem português, nem brasileiro. Perguntei para quem era a reserva e a pessoa me disse que era para um tal príncipe árabe, muito rico, e por isso deveria ter sua identidade preservada. Fernando Collor já havia passado pelo impeachment e PC Farias, seu tesoureiro de campanha, estava foragido da justiça brasileira e era nosso inimigo público número um.

Ah, tem mais. O cara que veio fazer a reserva é o mesmo que faz reservas para o Collor e a Roseane na Abreu em Paris. Esteve na agência ontem e, sem saber que eu sou brasileira, me perguntou onde ele poderia comprar jornais do Brasil.

- É o PC Farias, Bia, não tenho a menor dúvida!
- Você acha que estou louca?
- Não Bia, você não está louca. É o PC, só pode ser.
- O que você acha que eu devo fazer? Ninguém sabe disso. Tenho aqui comigo todo o processo da reserva e sei até o número do quarto em que ele está.

- Segura aí Bia. Vou pensar e te dou um retorno assim que eu puder.
Eu era relações públicas da Editora Papirus em Campinas e conhecia todo mundo da imprensa na cidade e alguns jornalistas da Folha de São Paulo. Comecei a fazer meus contatos.

Um amigo da Folha chega a conclusão de que não teria estrutura para fazer uma investigação daquele porte. Não tinha grana, ainda mais para sustentar apenas uma possibilidade. Que prova tínhamos de que realmente era o PC?

Liguei para a regional da Rede Globo. Falei com um jornalista conhecido, que sabia não se tratar de trote, e ele me disse que ligaria em seguida. Estou esperando até hoje...

Me certifiquei de que a questão era jornalística, pois o Brasil e a Inglaterra não têm tratado de extradição. Policial o caso também não era. Tínhamos dúvidas de que a própria Polícia Federal teria ajudado o PC a fugir do país.

Um cunhado me sugeriu fazer contato com o Silio Boccanera, correspondente da Globo em Londres.

Foi o que eu fiz. Liguei para a Bia e disse a ela que não vendesse a informação a ninguém como um irmão seu havia lhe sugerido, e que ligasse para o Boccanera.

Foi o que ela fez, no entanto, o Sílio estava em férias e quem atendeu ao telefone foi o Roberto Cabrini. A Bia passou-lhe todas as informações e Cabrini, que deveria cobrir o Grande Prêmio de Fórmula Um no Japão quando Airton Senna ainda era nosso campeão, mentiu à Globo dizendo que estava doente. Pegou um furgão e se colocou em frente ao hotel dando início às investigações.

Cabrini proibiu a Bia de fazer contato com qualquer pessoa, inclusive eu.  Ele ficava ligando-lhe de quinze em quinze minutos para saber de novidades e impedindo-a de fazer contatos. Prometeu à  Bia seis meses de salário caso ela perdesse o emprego. Até mesmo conseguir um emprego novo e outras coisas.

Passei ao menos uma semana no maior sufoco. Não sabia daqui do Brasil o que se passava. Foram dias e noites de alucinações com a Polícia Federal, a Globo, a Folha e a Scotland Yard. Minha esposa me pedia para eu esquecer aquela história. Que eu estava “delirando” e que não se tratava de PC coisa nenhuma.

Até que um dia pego a Folha e vejo estampado na capa do jornal a descoberta de PC em Londres com matéria de Xico Sá. Fiquei uma fera. Liguei pra Globo de Campinas cobrando uma satisfação. A pessoa que atendeu só gaguejava e não me dizia nada. Liguei pra Bia e não conseguia falar. Como que o Sílio e a Globo tinham comido uma bola dessa. Fiquei indignado

O resto da história nós sabemos. O Cabrini segurou a informação. Já tinha feito uma entrevista que guardaram para o Fantástico do próximo domingo. Mas não esperavam que o PC desse o furo para seu amigo Xico Sá. Aí ficou aquela polêmica de quem havia dado o furo jornalístico, a Folha ou a Globo? Enquanto isso o PC fugia ....

Minha amiga Bia perdeu o emprego por ter repassado informações profissionais. Seu caso foi parar nas altas instâncias inglesa que a absolveu por entender que ela, além de não ter se favorecido com a informação, teve a única intenção de ajudar seu país.

Cabrini, em vez de fazer o que lhe havia prometido, disse que rezaria muito por ela.

Assim foi que, daqui de nossa terra, consegui dar um encaminhamento para a questão de forma assertiva. PC não foi preso, mas foram dias de satisfação popular. Tínhamos encontrado nosso inimigo público número um.

 

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