Fonte: "Jornal da Cidade", Bauru, 25 de março de 2008
As trilhas de Kha Machado
Em seu primeiro CD solo, o músico revisita o início da carreira, quando tocava nos bares em Bauru
Marcelo de Souza - Jornal da Cidade de Bauru
Ninguém pode dizer que a vida de Carlos Fernando Ribeiro Machado, ou simplesmente Kha Machado, seja chata. Lançando o primeiro CD solo, ele passeia por várias etapas da carreira musical, dos tempos em que tocava nos bares de Bauru, passando pelas trilhas sonoras que compôs para peças de teatro.

As faixas do CD foram todas compostas pelo músico, e já é possível ouvir algumas dessas canções na rádio Veritas, como “Amarelinha”, “Ficô de Madame” e “Intimação Judicial”. “Eu tive um cuidado muito grande neste CD, no sentido de ter uma apresentação sonora e visual de primeira qualidade”, enfatiza o músico, destacando que, após apresentar o CD às rádios, pretende iniciar um roteiro de shows, que deve incluir Bauru.

No entanto, até chegar ao CD “Kha”, lançado pela gravadora Trilhas Culturais, esse paulistano do Brás se dispôs a fazer muita coisa em sua vida, desde que, aos 10 anos, se mudou com a família para Bauru. A primeira referência musical foi do avô Angelo Gianini, que era o único a ter alguma relação com a música, já que tocava violão. “Ele tocava Marcha dos Marinheiros, La Cumparsita, aquelas músicas mais antigas e aquilo já me fascinava”, conta.

Mas, por não ter em sua casa uma ligação mais intensa com a música além do avô, a primeira carreira escolhida por ele foi, como a de 99% dos meninos, de jogador de futebol. Ele conta que não tinha descoberto essa “vocação” até chegar a Bauru, pelo contrário, nas ruas do bairro do Brás, Kha Machado era o que chamamos “perna de pau”. “Quando eu mudei para Bauru, passei a freqüentar os campinhos e minha vontade inicial foi a de ser jogador de futebol. Cheguei a fazer alguns treinos no infantil do Noroeste até que acabei me machucando”, comenta.

Foi nesse período em que Kha Machado se interessou mais pela música, já que vários amigos de escola já tocavam violão. Logo depois de se machucar e abandonar uma, quem sabe, promissora carreira de ponta-direita do Norusca, ele decidiu se aventurar pelas cordas do violão, como seus colegas de escola. “Eu comecei como autodidata, mas ainda sem ter o violão, porque meu pai só decidiu me dar depois de um ano, quando percebeu que era sério”, lembra.

De acordo com o músico, assim que começou a tocar violão, seu interesse pela MPB aumentou, afinal, na época, por volta de 1974, em plena ditadura militar, a juventude se espelhava em ídolos como Chico Buarque, Edu Lobo, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Tom Jobim e Vinícius de Morais, entre outros.

A partir daí, Kha Machado integrou o Grupo Porto, que tocava MPB e chegou a fazer shows pela cidade, até que saiu do grupo e resolveu ingressar na faculdade de engenharia civil, na Fundação Educacional de Bauru, atual Unesp. Sem dinheiro para conclui-lo, ele desistiu do curso e ingressou na política, em um partido de esquerda, até que em 1982 ele se lançou candidato a vereador pelo PT, mais por imposição do partido do que por vontade própria. “Acho curiosa essa história, porque a primeira vez que eu votei na minha vida, eu votei em mim”, conta.

O período de militância de Kha Machado na política era sustentado pelas aulas de violão e pelos shows em bares da cidade, sempre tendo a MPB como foco. Depois da eleição de 1982, o músico se viu perdido em Bauru e decidiu se mudar para Campinas, como ele mesmo diz, por amor, já que a mudança se deu por causa da esposa, Wônia.

A carreira profissional de Kha Machado começa efetivamente em Campinas, quando ele resolveu estudar música para valer. Enquanto trabalhava em uma editora, vendendo livros, ele estudava aos finais de semana no conservatório musical de Tatuí. “Eu trabalhava na Papiros, ganhava meu salário mínimo para todo final de semana pegar ônibus, levar três horas para ir, três horas para voltar, mas foi quando eu comecei a aprender a tocar violão de verdade”, diz.

Com as aulas no conservatório, Kha foi se aprimorando para prestar vestibular na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde se graduou em composição. “Nesse período tive oportunidade de estudar viola de orquestra e violino”, destaca, ressaltando que a Unicamp foi fundamental em sua real formação como músico. “Tatuí foi importante, mas too aprendizado da minha formação foi dado na Unicamp”, salienta.

Ainda na Unicamp, Kha Machado ajudou a formar o embrião de uma orquestra que se tornaria depois a Oficina de Cordas, com a ajuda e do professor José Eduardo Gramani. Com a Oficina, Kha gravou o CD “Trilhas”, em que a orquestra faz a leitura de vários compositores. “O CD foi muito bem recebido pela crítica e concorreu ao prêmio Sharp de música. Eu não toco mais na orquestra, mas tive essa oportunidade”, conta. Junto à Oficina de Cordas, havia outros grupos paralelos, o Trio Bem Temperado, o Trem de Corda e o Ânima, sendo que apenas a Oficina e o Ânima estão em atividade.

http://www.jcnet.com.br/editorias/detalhe_cultura.php?codigo=126705

< Voltar
Kha Machado 2010 © Todos os Direitos Reservados.
Manutenção por Eduardo Almeida